Este projeto pretende transitar, questionar, ensaiar por entre possíveis conflitos existentes entre cidade e organismo.
Projeto, s. m. 1. Plano para a realização de um ato: desígnio, intenção.
Adotamos como força motriz, para a execução deste ensaio, as analogias possíveis entre o sistema viário da cidade e o sistema circulatório do corpo – vias/veias. Utilizando como matéria-prima para a elaboração deste trabalho o acúmulo de fragmentos de momentos: vídeos capturados nos trajetos percorridos pela cidade¹.
Porém, antes de tudo, gostaríamos de trazer à tona, para uma melhor compreensão deste estudo, um conceito que permeia a poética deste trabalho em seu processo total: O RITORNELO.
Pode até soar dissonante – a um ouvido “restrito” - a utilização de um conceito musical para um trabalho que têm como “tônica estrutural” a área arquitônico-urbanística. No entanto ao tangenciar este conceito percebemos alguns sutis harmônicos que o circundam: sua relação com a ideia de diferença/repetição - levantada pelo pensador Gilles Deleuze - onde o ritornelo, em toda sua profundidade, seria em si um caso do eterno retorno da diferença; sua intrínseca relação com diversas vertentes de pensamentos orientais: vide I Ching², Kabuki, Teatro Nô, Butô, Tai Chi, entre outras. Reveladoras das mutações inerentes às repetições dos ciclos da vida.
A partir desses índices, encontramos no RITORNELO³ uma chave estrutural muito adequada para refletirmos as formas de vida citadina, aprendendo que estas transitam num perpétuo - porém complexo - ciclo do vai e vem, do dormir e acordar, do ir e voltar, que se repete sem nunca ser exatamente igual – dentro da teoria da comunicação poderíamos argumentar que cidade seria: a redundância sempre sendo tomada de súbito pela imprevisibilidade do ruído.
Sabendo a cidade o espaço sinestésico total por excelência, com toda sua complexa gama de códigos/meios que a perpassa, decidimos optar como estratégia para compor este trabalho lançarmo-nos no desafio de percorrer um caminho intersemiótico – cruzamento e utilização de diversas linguagens, tais como o cinema, a música, poesia e foto-montagem.
Assim,tendo em mente a afirmativa de que os meios de comunicação são extensões do corpo, tentamos por meios destas, revelar algumas das diversas sensações que a vida numa cidade – no caso São Paulo – podem causar nos nossos organismo – subjetivamente/objetivamente.
Conflito positivo/negativo – Diagnosticamos uma situação extraordinariamente paradoxal, pois se por um lado a “vida” na cidade está beirando a claustrofobia, desespero, onde chegamos a tal ponto em que questionamos profundamente se “isso que vivemos” pode ser chamado de vida, por outro lado, sentimos um processo quase inaudito fluir de correntes que começam a circular pelos seus interstícios, correntes estas que se propõem a não querer mais anular o dado do imprevisível, que buscam descobrir neste caos atual novos caminhos, aliando-se assim ao “antigo inimigo”, aprendendo a viver o conflito, ou melhor, viver o entre-conflito, transitar entre o positivo e o negativo, sem a necessidade de uma arregimentação/síntese final.
Este ensaio letteraudiovisual se atenta aos sentidos - “o que em mim pensa esta sentindo”, busca explorar os primórdios da percepção, o que ainda não emergiu à consciência de maneira clara, nem hipotático, nem hipotético. Tenta não se iludir a “desenvolver” soluções “prontas” nem simplesmente apenas apontar os inúmeros problemas que podemos observar/perceber de nossa cidade, que sabemos, é extensão de uma cidade muito maior, cidade global.
A que se pretende então? Que projeto é este? Será que o sistema lógico ocidental não teria muito para aprender a partir das estruturas ilógicas de percepção das sensações?
Buscamos com este video criar uma atmosfera de sensações, que revela-se melhor para quem “se deixar levar a flor da pele”; tentando abrir, libertar, emancipar nosso corpoalma que geralmente fechamos para nos resguardar desta realidade áspera. Mas não viria este ato de auto-proteção acompanhado de uma contrapartida que nos torna cada vez mais insensíveis?
Tentativa de criar a partir da pergunta, vivendo a pergunta; intenção deste trabalho não é provar nem propor nada de fechado ou obtuso, mas uma outra coisa. Do caos ao caosmo. Emancipando a (des)sincronia do Passado, Presente e Futuro à margem de um rio corrente. No final não chegamos ao fim, mas em várias saídas e entradas para novos começos.
“O trabalho é permeado por uma atitude de abertura ‘existencial’, de suspensão de juízo, que tem como objetivo perceber o não percebido, descobrir o que está escondido, tornar visível o invisível.” BONFITTO, Matteu – O Ator Compositor.